F1
28/04/2015 08:00

Análise: em nova era, McLaren amarga pior início de temporada da história

Desde sua fundação em 1966, a McLaren jamais havia terminado as quatro primeiras corridas de uma temporada de F1 sem chegar aos pontos. Fernando Alonso e Jenson Button tentam reconstruir, ao lado da Honda, o time dono de nada menos que 20 títulos mundiais — 8 de Construtores e 12 de Pilotos
Warm Up
FERNANDO SILVA, de Sumaré
PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro
VIU ESSA? HOMEM MORRE ATROPELADO EM ETAPA DE ARRANCADA EM SANTA CATARINA
O sábio ditado popular vaticina que às vezes é melhor dar um passo atrás para caminhar dois à frente no futuro. Talvez com o propósito de voltar a viver seus melhores momentos na F1, a McLaren deixou para trás um casamento de 20 temporadas com a Mercedes. O matrimônio rendeu bons frutos, é verdade: 78 vitórias, 76 poles e quatro títulos mundiais. A união, porém, começou a dar sinais de desgaste desde quando a Mercedes comprou a campeã de 2009 Brawn GP e montou sua própria equipe de F1. Daí por diante, o relacionamento azedou a ponto que cada uma foi pro seu lado. A McLaren então, como se quisesse imitar Tim Maia e cantar ‘Paixão Antiga’, voltou para os braços da Honda para reeditar uma aliança vitoriosa que proporcionou a Ayrton Senna e à própria equipe seus melhores anos na história.
 
Mas os novos tempos são difíceis para a McLaren-Honda, que desde o ano passado não conta com o chamado patrocínio-máster. 2015 representa o pior início de temporada da história de uma equipe que já conquistou, desde sua fundação em 1966, nada menos que 20 títulos mundiais, sendo 8 de Construtores e 12 de Pilotos.
 
A unidade de força adotada pela F1 desde o início de 2014 é extremamente complexa, um bicho de sete cabeças. Basta lembrar como foi a abertura da pré-temporada passada, com os pilotos alcançando quilometragem baixíssima, porém progredindo ao longo do tempo. Mesmo nos dias de hoje, já com uma boa experiência, a Renault parece não ter acertado a mão, basta ver o que tem ocorrido com Red Bull e Toro Rosso, azedando os energéticos de Dietrich Mateschitz. Novata na árdua tarefa de conceber os novos motores V6 turbo de 1,6 L, a Honda, como já era esperado pela própria montadora e também pela McLaren, vem enfrentando dificuldades para colocar mais potência no propulsor.
 
No entanto, apesar das dificuldades e do sofrimento por andar nas últimas posições neste começo de temporada, a McLaren, por meio de Éric Boullier, seu diretor-esportivo, vem enaltecendo o entrosamento cada vez maior com a Honda e elogiando a filosofia adotada pelos japoneses na fábrica em Sakura. Em momentos como este, o passado vencedor serve como grande alento e motivação para que todos trabalhem com mais esmero em busca de resgatar os bons tempos e recolocar o time de Woking onde quase sempre esteve: no topo da F1.
Formados. Mas prontos? (Foto: McLaren)

Só que não está sendo fácil, como poderia cantar a lendária Kátia. Desde o começo dos trabalhos, ainda nos testes coletivos realizados em Abu Dhabi, a Honda acumulou pouca quilometragem, sendo o mesmo nos treinos de inverno neste ano na Espanha. A preparação para 2015 foi permeada por problemas, não apenas no motor, além do acidente ainda obscuro ocorrido de Alonso em Barcelona, que o tirou do GP da Austrália. Para se ter ideia, foram apenas 380 voltas em 12 dias de testes, totalizando 1.751 km. A dominante Mercedes rodou 1.340 voltas, ou 6.121 km, acima de três vezes mais em comparação com a McLaren.
 
O MP4-30 parece bom e equilibrado, mas não dá para sair do lugar se não houver potência e a boa e velha confiabilidade. Sem Alonso, Kevin Magnussen voltou à F1 excepcionalmente para disputar a etapa de Melbourne, mas sequer teve o gostinho de largar ao amargar um abandono ainda na volta que o levaria ao alinhamento inicial, e justamente devido a uma quebra no motor. Quanto a Button, restou a possibilidade de correr tão somente para chegar e acumular a quilometragem não-adquirida na pré-temporada. Com o motor ligado em modo de segurança, o britânico se arrastou na pista e tomou inimagináveis duas voltas de Hamilton. Mesmo com o grid magrinho, com apenas 13 carros completando o primeiro giro — e outros dois ficando pelo caminho —, Button não teve muito que fazer na Austrália. Dono de três vitórias em Melbourne, o britânico foi 11º e último.
Kevin Magnussen vê o motor Honda estourar ao sair dos pits em Melbourne (Foto: Reprodução TV)
Era a gloriosa McLaren vivendo dias de Minardi. Como foi também no GP da Malásia, duas semanas depois. Button e Alonso ficaram de fora da classificação ainda no Q1, e na corrida ambos abandonaram: o espanhol com uma falha no ERS, enquanto o campeão mundial de 2009 perdeu potência na volta 41. Apesar do cenário teoricamente desolador, a equipe conseguiu enxergar uma melhora no desempenho do MP4-30 em relação a Melbourne, embora estivesse ciente que os problemas levariam tempo para que fossem solucionados, restando aos seus pilotos, engenheiros e mecânicos o contentamento com pequenos avanços durante o Mundial.
 
E um desses avanços foi conquistado no GP da China. Mesmo com um discurso pés no chão de Éric Boullier, que não esperava um grande passo em frente pelas características dos circuitos de Xangai e Sakhir — que receberia a F1 na semana seguinte à corrida na terra de Mao Tsé-Tung. Pela primeira vez na temporada, a McLaren conseguiu terminar uma prova com seus dois carros, ainda que em posições pouco animadoras do ponto de vista de resultado: Alonso cruzou a linha de chegada em 12º, uma volta atrás do vencedor Hamilton, enquanto Button terminou em 13º, que virou 14º com uma punição por ter acertado o carro de Pastor Maldonado.
 
Já no fim de semana do Bahrein, a McLaren viveu dias de emoções opostas. Pela primeira vez no ano, o time de Woking conseguiu avançar ao Q2. Alonso foi o autor da proeza ao colocar seu carro em 14º no grid em Sakhir depois de cumprir um bom trabalho em todos os treinos livres. A jornada do bicampeão do mundo foi coroada com seu melhor resultado em 2015: 11º lugar, repetindo Button na Austrália, mas com um desempenho bem melhor e com o motor Honda em sua potência máxima — que ainda é muito aquém dos concorrentes Mercedes, Ferrari e Renault. Mas Button teve pouca chance de acelerar. Jenson pôde participar efetivamente apenas do segundo treino livre, enfrentando problemas em todas as outras atividades de pista. Na sessão classificatória, o piloto sequer conseguiu marcar um tempo decente, enquanto sua corrida nem chegou a começar. Mesmo com todo o empenho por parte dos mecânicos e engenheiros da McLaren, não houve santo que fizesse seu MP4-30 #22 ir para a pista naquele início de noite de domingo.
Carro de Button fica isolado nos boxes e deixa inglês fora do GP do Bahrein (Foto: Reprodução TV)
Passada essa primeira fase do Mundial, pilotos e dirigentes têm discurso similar: o início do trabalho, ainda que os resultados não sejam nada animadores, está melhorando a cada dia, bem como o entrosamento com a Honda. Com a chegada da temporada europeia da F1, no próximo 10 de maio, em Barcelona, a McLaren planeja levar algumas atualizações pontuais para melhorar a performance do MP4-30, algo que deverá ser feito também pelos outros times. Por tal razão, não há grandes expectativas para o que Alonso e Button possam fazer em pista.

Entre períodos de vacas mais gordas e mais magras, com os anos de menos pontos e os oito títulos mundiais de Construtores e 12 de Pilotos, a McLaren se perpetuou como uma das marcas mais sólidas e uma das rivais mais temidas do grid. É difícil imaginar que não houvesse um plano traçado, um estudo conjunto, que visasse um controle de danos inicial, mas prevendo um estouro no futuro próximo. Ron Dennis jamais daria um tiro no escuro com as apostas tão altas e tanto a perder. Depois de tantas dificuldades neste início de temporada, um ponto já seria um grande alento para uma equipe que já viveu das glórias do passado, mas hoje busca se reconstruir a passos lentos, mas que, na visão dos dirigentes chefiados por Dennis, são certeiros. Segundo Boullier, a McLaren só voltará a ser McLaren em 2017, nove anos depois do último título mundial, conquistado justamente por Hamilton.

Não foi sempre que a McLaren esteve no topo do jogo, é bem verdade. No ano de debute, 1966, e em 1981, um ponto de Bruce McLaren e Andrea de Cesaris, respectivamente, separou aqueles anos de 2015. Estranhamente, em 1966 era a italiana Serenissima - que tentou se encaixar como escuderia no começo dos anos 1960, mas acabou falhando — quem fornecia os motores para a equipe na corrida do primeiro ponto de 1966. 15 anos depois, era a Cosworth quem empurrava. Em 1979, também teve apenas um piloto pontuando em uma das quatro corridas iniciais, considerando o sistema da época. 
 
A transição de Honda para Mercedes nos anos 90 — quando a equipe chegou a contar com os motores Ford em 1993 e Peugeot, em 1994, já sem Senna — foi igualmente difícil, mas a McLaren sobreviveu e voltou a vencer e conquistar títulos. Tudo indica que é apenas uma mais uma fase de transição, como quem acompanha o esporte está acostumado a ver de tempos em tempos. E levando em conta toda a capacidade de trabalho de McLaren e Honda, não é de se duvidar que os tempos de vacas magras durem menos que o previsto e que os resultados comecem a florescer.

Quem viver verá.

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