F1
17/04/2015 03:20

Conta-giro: a favor ou contra 'F1 de saias', mulheres concordam onde se encontra o problema: na preparação

De “sonho de consumo' à ”puta babaquice“: as pilotas aqui e lá fora divergem categoricamente a respeito da criação de um campeonato só delas. Mas o que se tem como certeza geral — e o GRANDE PRÊMIO ouviu Susie Wolff (F1), Pippa Mann (Indy), Bia Figueiredo (Stock Car), Michelle de Jesus (F-Truck), dentre outras — é o que falta para que elas estejam no mesmo nível dos homens: a base
Warm Up
EVELYN GUIMARÃES, de Curitiba
JULIANA TESSER, de São Paulo

Foi Bernie Ecclestone quem recolocou em pauta recentemente o papel das mulheres no esporte a motor. Ainda buscando uma forma de atrair mais público para o Mundial e ganhar em publicidade também, o dirigente de 84 anos propôs a criação de uma categoria voltada apenas às pilotas — uma ‘F1 de saias’, como queiram. A ideia seria colocar as meninas em um campeonato que seria a preliminar dos GPs da F1.

"Pensei que seria uma boa ideia em dar a elas um espaço. Por alguma razão, as mulheres não estão vindo — e não é porque não as queremos. É claro que queremos, porque elas chamariam muita atenção e publicidade e provavelmente muitos patrocinadores", esclareceu Ecclestone.

Logo que a proposta ganhou as manchetes, muitas análises foram feitas em cima do discurso do britânico e a opinião das competidoras também veio à tona, levantado como questão central a capacidade de se gerar um grid com um número razoável de carros e minimamente competitivo. Afinal, a F1 não vê uma mulher competir em um GP desde a italiana Lella Lombardi, na longínqua temporada de 1976.
Apenas cinco mulheres conseguiram disputar GPs na F1, a italiana Lella Lombardi foi um dos destaques. Ela correu em 12 provas, sendo a melhor classificação um sexto posto (Foto: Forix)
Em treinos oficiais, a última participação foi da escocesa Susie Wolff. A pilota de testes da Williams andou nas sessões livres para os GPs da Alemanha e da Inglaterra no ano passado. Antes dela, a também italiana Giovanna Amati havia sido a última andar em um fim de semana de corrida, em 1992 — não se classificando para nenhuma das três provas que tentou naquele ano, entretanto.

E foi Susie que chegou mais perto de conseguir quebrar essa barreira. Wolff chegou a ter o nome vinculado na Williams depois que o titular Valtteri Bottas sofreu uma lesão nas costas na etapa da Austrália deste ano. Mais tarde, a própria equipe inglesa descartou a possibilidade de contar com os serviços da escocesa.

Outra que também tentou se aproximar da maior das categorias recentemente foi a suíça Simona de Silvestro, que ano passado se filiou à Sauber para se preparar para a F1. O vínculo não deu certo, e a pilota teve de retornar à Indy.

Neste ano, a espanhola Carmen Jordá foi anunciada pela Lotus para o cargo de piloto de desenvolvimento, o que, na prática, significa que ela será a responsável pelos testes no simuladores. A pilota, no entanto, acompanha as atividades da equipe em pista.

Nas principais categorias de base, também há poucos nomes se for para buscar por um eventual grid. A GP2, em tese, a categoria mais próxima da F1, não há nenhuma pilota. O mesmo acontece com a GP3. Na World Series, de onde vieram Daniel Ricciardo, Carlos Sainz Jr. e também Sebastian Vettel, há apenas a holandesa Beitske Visser.

Então, qual é o problema? Por que as meninas não conseguem chegar à F1? Seria mais fácil se houvesse uma versão feminina da F1? As opiniões são divergentes entre as próprias pilotas.
Susie Wolff é pilota de testes da Mercedes (Foto: Getty Images)

Quando Ecclestone sugeriu a ‘F1 de saias, Susie Wolff rapidamente se manifestou contra. Para ela, um campeonato exclusivo não é a solução. E também não despertaria seu interessante.

"Definitivamente, não é a maneira certa de agir. Primeiro de tudo, não sei onde você vai encontrar um grid cheio de pilotas que sejam boas o bastante. Em segundo lugar, corri toda minha carreira no automobilismo como uma competidora normal. Por que eu me interessaria por uma corrida onde eu esteja competindo apenas contra outras mulheres?", perguntou.

Antes dessa declaração, Susie já havia falado sobre a ascensão das mulheres. Para Wolff, é necessária uma preparação melhor. A própria pilota tenta ajudar as garotas com sua experiência. "Sempre vejo as meninas nas categorias menores e tento ajudá-las. Elas precisam de uma preparação melhor. O nível é alto, e sei que posso ser um exemplo também”, disse Susie ao GRANDE PRÊMIO.

“É claro que não tenho tanto tempo para acompanhar o quanto gostaria, por causa do meu próprio trabalho. Mas eu sei exatamente onde estão e o que estão passando”, revelou Susie. “Eu leio todos os e-mails e todas as mensagens que eu recebo – e são muitas –, eu respondo a todas. Eu tento passar um pouco da minha trajetória, da minha experiência, contar os erros que eu cometi. E um dos grandes problemas – e que afeta a todos nesse esporte – é a questão do patrocínio também”, destacou. “Elas também precisam trabalhar em cima disso e eu tento aconselhar também. É encorajador ver o número de meninas que me procuram", garantiu.
Bia Figueiredo corre na Stock. É a única mulher da categoria (Foto: Carsten Horst)
A brasileira Bia Figueiredo também foi na mesma linha da pilota da Williams. Pilota da Stock Car em 2015, mas com experiência na Indy e vitórias na Indy Lights, Bia é mais uma que acha que a proposta de uma categoria feminina não é o caminho. Para ela, o ideal é o investimento desde a base. “Eu tenho na minha cabeça que apenas cinco ou seis mulheres teriam condições mesmo de pilotar carros de F1 hoje em dia, então acho que o grid seria muito pequeno”, falou ao GRANDE PRÊMIO.

“O que eu acho que o Bernie deveria tentar fazer de alguma forma é incentivar a mulher a querer entrar no automobilismo, cuidar das meninas lá na base para que elas cheguem bem à F1”, disse. “Na minha opinião, é muito mais legal ver garotas ganhando corridas em categorias com homens do que um campeonato exclusivo. E já tivemos exemplos de vitórias lindas, como da Danica Patrick na Indy, as minhas nas categorias de base, também já teve mulheres ganhando no rali, no Motocross. Atualmente, a Simona está na Indy e tem condições de vencer. Eu estou agora na Stock e também tenho lutado muito”, afirmou.

Figueiredo acha um desperdício de talento separar o automobilismo em disputas de homens e mulheres. “Penso que não seria ideal existir uma divisão como em outros esportes. Aqui não tem a questão de força, nem nada, porque todos podem pilotar a máquina. Para mim, o ideal é o Ecclestone fazer com uma menina o que a McLaren fez com o Lewis Hamilton: pegar lá da base e ir treinando, fazendo crescer, preparar a garota. Muitas meninas crescem tentando, mas quando chegam na hora H, não conseguem avançar, não conseguem o patrocínio correto. É complicado”, declarou Bia.

A pilota, que começou ainda criança no kart brasileiro, voltou a bater na tecla do incentivo ao tentar explicar a razão de tantas meninas não conseguirem progredir no esporte. “Culturalmente, as mulheres não gostam de velocidade. E não sei explicar a razão. O número de meninos é bem maior. Muitas vezes as meninas até gostam, mas não tem o apoio necessário e a aprovação da família. E isso precisa ser incentivado. Precisamos mostrar que há uma igualdade, mostrar que não é um esporte só de homens. E nada melhor do que dar a resposta na pista.”

“A Susie está lá na F1, mas ela ainda é pilota de testes e tudo mais. Mas seria altamente interessante ter uma garota competitiva lá também, sendo a F1 a categoria top do mundo. A Simona, que eu acho que é super capaz, esteve perto, mas não deu certo. Chega lá, também, não tem ninguém que apoie e que ajude. Acho que há meninas, sim, no esporte, mas elas precisam ser preparadas, com trabalho sério, para que elas consigam chegar ao nível de desempenho que a F1 exige, para competir em igualdade de condições”, acrescentou.
Michelle de Jesus anda na F-Truck (Orlei Silva)
Também competindo em uma importante categoria nacional, a F-Truck, Michelle de Jesus entende que a preparação adequada é o fator que mais pesa para o avanço das garotas no esporte. “Eu acho que as meninas não estão preparadas mesmo, porque não há bagagem. Teria de ser uma base igual ou melhor que a dos meninos, porque o nível hoje é muito alto para se alcançar as categorias maiores”, afirmou.

Mas diferente de Susie e Bia, Michelle gostou da ideia de Ecclestone. Para ela, a proposta é um sonho, é uma forma de aproximar da F1. “Pessoalmente, eu vejo como um sonho de consumo. Mulheres como eu, a Bia Figueiredo, a Danica Patrick, a Simona... É um sonho. Acho que seria super ideal ter um campeonato feminino. Acho que a mulher merece esse espaço, é merecedor”, afirmou a paulista, que já correu no Brasileiro de Marcas.

A competidora, entretanto, fez uma ressalva. “Mas acho que se for adiante... Ele terá dificuldades, mas penso também que o retorno de mídia será gigantesco. Hoje, realmente, não há mulheres para formar grid, então talvez tenha de chamar uma mulher de cada país. É um desafio interessante”, acrescentou.

A inglesa Pippa Mann tem no currículo passagens pela World Series, F-Renault Inglesa e Euro, além da Indy Lights e Auto GP. A pilota de 31 anos também já andou na Indy e tem três largadas nas 500 Milhas de Indianápolis. A F1 chegou a ser um sonho, mas a categoria norte-americana de monopostos acabou sendo o caminho. Ao falar da participação das meninas na Indy, Mann se disse valorizada, mas também entende que a uma boa preparação é fundamental.

"Não interessa se você é homem, mulher, inglês, americano ou dinamarquês, é muito complicado encontrar um grande patrocinador. É difícil estar aqui, mas é igual para todos”, disse Pippa ao GRANDE PRÊMIO em Indianápolis no ano passado. "Mas é preciso trabalhar duro também, se preparar, mostrar que é possível. Só assim também será possível ver mais meninas nas pistas”, completou.

No mundo das duas rodas, também há opiniões divergentes. María Herrera, jovem pilota da Moto3, vai ainda mais longe e entende que um campeonato único seria uma forma de discriminação. “Criar um campeonato só para mulheres seria diferenciar as mulheres dos homens”, opinou. “Acho que essa mudança baixaria o nível da competição”, completou.

As mulheres do esporte a motor

Mas não é bem assim

Embora o mundo do automobilismo tenha reagido mal à ideia da ‘F1 de saias’, a divisão entre homens e mulheres no esporte a motor não é tão incomum, especialmente em duas rodas. Categorias como Trial, Enduro e Motocross, por exemplo, fazem essa distinção, inclusive nos campeonatos internacionais. No Brasil, a separação entre homens e mulheres no motocross é mais recente, mas é vista com bons olhos por Stefany Serrão, campeã brasileira e latino-americana da categoria.

“Os campeonatos direcionados apenas para mulheres são coisa de hoje em dia, coisa de dois anos para cá aqui no Brasil, porque a minha carreira inteira foi só com homens”, explicou a pilota ao GRANDE PRÊMIO.

A paulista de 19 anos, que começou no esporte aos seis anos de idade após ganhar uma moto do pai, nunca sentiu preconceito por parte de seus rivais, mas nem por isso deixa de ver vantagens na criação de certames femininos.

“Eu não sou nem homem e nem mulher quando eu estou ali, eu sou mais um. Mais um piloto”, falou Stefany. “Sempre foi muito normal. Desde pequena competindo, então todo mundo me conhece há bastante tempo e tem muito respeito”, continuou.

“Mas, queira ou não, tem toda uma desvantagem física de competir com homens. Os meninos de 20 anos são muito mais fortes do que eu”, comparou a pilota da Honda. “Isso é muito bom, fortalece também as meninas que querem começar. Eu imagino que elas se sintam mais protegidas, mais seguras, e o número de mulheres só vai aumentando”, observou.

Questionada especificamente sobre a reação do mundo do automobilismo, Stefany avaliou que a oposição à ideia reflete o preconceito e a insegurança das mulheres. “Eu vejo isso como um enorme preconceito e machismo da parte das mulheres, porque não tem nada a ver”, declarou. “É legal competir com os homens? É legal, você se sente parte daquilo, mas tem toda uma desvantagem. Se você está competindo só com mulheres, você está competindo com alguém da tua classe”, seguiu.

“Então elas se sentirem ofendidas por conta disso, eu acho que é machismo e também mostra toda a insegurança que a mulher tem de que precisa estar competindo com homem. Não tem nada a ver isso”, reforçou. “Já não tem chance para mulher com moto, no automobilismo é muito mais difícil por conta de preço e tudo mais. Você criando uma categoria só para mulher, com certeza vão ter muito mais mulheres correndo, então eu acho isso, de verdade, uma puta de uma babaquice”, resumiu.

Mesmo defendendo as categorias femininas, Serrão acredita que, fora o aspecto físico, não há nenhum impedimento para que uma mulher vença um homem, mas é preciso encontrar um caminho para superar a força dos rivais.

“Eu corro com homens e brigo pela ponta na minha categoria, a MX3. Eu corro de igual para igual. Claro, se eu tomar uma porrada, uma dividida numa curva, eu vou me ferrar, mas, até então, você tem que comer pelas beiradas, tem que ir fortalecendo um outro modo de andar. Só isso”, relatou. 
Laia Sanz é pilota de rali (Foto: Honda)
Maior nome no off-road feminino da atualidade, Laia Sanz conhece os dois mundos do esporte. Em seus anos de Trial, a catalã correu apenas com mulheres, situação que se repete no Mundial de Enduro, mas no Dakar, aquela que é conhecida como a prova mais difícil do planeta, a agora representante da KTM vive uma outra experiência.

No início do ano, após conquistar o nono posto no resultado geral do Dakar e se tornar a melhor mulher entre as motos na história da competição, entretanto, Laia avaliou que é impossível que uma mulher vença um homem.

“É impossível que uma mulher ganhe o Dakar, porque existe um limite físico”, afirmou Sanz em entrevista à agência de notícias ‘Europa Press’. “Não é uma questão de machismo, simplesmente é isso. Quando você está tão para cima, você nota esse limite”, comentou.

No asfalto, porém, algumas mulheres já conseguiram triunfar em categorias mistas. Elena Myers, por exemplo, entrou para a história no motociclismo norte-americano como a primeira mulher a vencer na categoria local de Superbike.

Depois de provar que é possível vencer os homens, Myers também se posicionou contra a uma disputa unicamente feminina e, em entrevista ao GRANDE PRÊMIO defendeu seu ponto seguindo a linha do mundo da F1.

“Eu, pessoalmente, preferiria nunca ser campeã mundial e dar tudo de mim, do que correr apenas com mulheres e ser campeã mundial”, revelou. “Sim, as mulheres poderiam ser campeãs mundiais se tivessem uma categoria para elas, claro, mas não seriam as melhores do mundo."
 

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