F1
04/07/2016 08:00

Opinião GP: 14 anos depois do 'hoje não, hoje sim', GP da Áustria enfim vê disputa de verdade entre companheiros de equipe

O duelo espetacular entre Nico Rosberg e Lewis Hamilton na última volta do GP da Áustria, sem qualquer interferência da Mercedes, fez lembrar o desfecho vergonhoso de 14 anos atrás na mesma Spielberg, quando Rubens Barrichello abriu para Michael Schumacher passar e vencer. Contudo, no último domingo (3), a luta foi corajosa e verdadeira. Nenhum dos dois pilotos tirou o pé, brindando a F1 com um desfecho de corrida sensacional, bem diferente de 2002
Warm Up
FERNANDO SILVA, de Sumaré

As voltas finais do GP da Áustria de 2002 ainda estão na retina. Rubens Barrichello, com uma Ferrari que dominava a F1 no início do século, foi o grande nome da corrida em Spielberg e rumava para uma vitória consagradora. Nas voltas finais, porém, Michael Schumacher se aproximava. Clima de tensão no ar. Veio o giro derradeiro em Zeltweg, e as imagens do então tetracampeão chegando no brasileiro se intercalavam com Jean Todt no pit-lane falando com seus dois pilotos. Ao entrar na reta dos boxes para a vitória, Rubens diminuiu o ritmo e permitiu a Schumacher passar e alcançar a mais vergonhosa das suas 91 vitórias na F1 num 12 de maio em que o esporte perdeu. Foi o famoso ‘hoje não, hoje sim’, eternizado por Cleber Machado.
 
Pouco mais de 14 anos depois, o mesmo circuito austríaco, rebatizado de Red Bull Ring, foi palco de uma prova empolgante do início ao fim. A Mercedes, tão dominante quanto foi a Ferrari em 2002, tinha seus dois pilotos na frente nos giros derradeiros da corrida, com Nico Rosberg se segurando com pneus mais gastos contra um Lewis Hamilton ávido pela vitória para acirrar a briga pelo título. Na volta final, o confronto foi inevitável. Bem diferente de 2002, nem Rosberg e tampouco Hamilton afinaram. Numa manobra dura, porém de corrida, os dois pilotos se tocaram, com Nico levando a pior, tendo a asa dianteira do seu carro danificada. 
O confronto entre Rosberg e Hamilton na volta derradeira do GP da Áustria. Vitória do esporte (Foto: Reprodução)
É evidente que o contexto do último domingo é muito distinto daquele de maio de 2002. Schumacher nadava de braçada rumo ao penta e tinha vantagem quilométrica para Barrichello ou qualquer outro piloto naquele ano, de modo que qualquer ordem de equipe era injustificada. Em 2016, não. Hamilton e Rosberg lutam pelo título num campeonato que, ao que tudo indica, vai levar a melhor quem cometer menos erros. Por isso uma vitória na Áustria era tão importante, fosse para quem fosse.
 
Mesmo depois da batida na primeira volta do GP da Espanha, que culminou com o abandono de Hamilton e Rosberg, nada indicava que um ou outro iria ‘pipocar’ em um novo confronto. Nico chegou a ser criticado por ter deixado o tricampeão passar no GP de Mônaco, mas era uma situação atípica, uma vez que o alemão sofria com o asfalto molhado do Principado. Em Spielberg, contudo, não pegaria nada bem ter a mesma postura passiva, ainda mais na última volta e contra seu maior rival.

 
Rosberg partiu para o tudo ou nada. Hamilton partiu para o tudo ou nada. Em tais situações, está claro que sempre um deles vai perder. Nico, que alegou problemas nos freios, levou a pior, mas ao menos mostrou ao mundo que não é um amarelão e que vai lutar pelo título até o fim. Em um confronto duro, porém marcado pela coragem dos dois, Hamilton foi bem-sucedido e conseguiu não só passar Rosberg como vencer uma prova que já lhe parecia perdida – ainda mais depois de uma estratégia que soava estranha no fim da prova, mas que depois se mostrou a mais correta. 
A Mercedes acerta ao liberar geral a briga entre Hamilton e Rosberg (Foto: Beto Issa)
Na volta 54, a Mercedes chamou Hamilton para colocar pneus macios usados. Uma volta depois, a equipe alemã trouxe Rosberg para os boxes. Mas diferente do que fez com o britânico, o time equipou o carro #6 com compostos supermacios novos. A tática foi questionada pelo próprio Lewis, que não contava com o desgaste excessivo dos pneus vermelhos de Nico. Aí veio o confronto na última volta em Spielberg.
 
A Mercedes poderia ter adotado a mesma postura da Ferrari, a famigerada expressão ‘trazer as crianças para casa’ e evitar um duelo que poderia novamente colocar os dois carros para fora da pista — e entregar uma vitória até improvável para Max Verstappen. Para sorte do esporte, os fãs não foram privados de uma disputa verdadeira pela vitória na Áustria. 
 

A FIA, patética, resolveu punir Rosberg em 10s por considerar o alemão culpado pelo toque em Hamilton. Uma sanção desnecessária e sem sentido, já que foi uma manobra de corrida. Na postura da entidade, fica implícita a mensagem de que os pilotos se portem como marionetes e abram mão de lutar pela glória máxima do automobilismo: a vitória.
A história foi bem diferente há 14 anos. Como não lembrar do 'hoje não, hoje sim' de 2002? (Foto: AFP)
No fim das contas, outra lembrança de 2002. No topo do pódio, Hamilton, como Schumacher há 14 anos, era vaiado pelos poucos torcedores em Spielberg. A razão, segundo diz a emissora Sky Sports, é que o narrador da corrida para o autódromo disse que a culpa pelo toque de Rosberg foi de Lewis. Logo devem ter visto o erro do eco de quem fez um bem a eles e ao campeonato. Levando em conta a luta de igual entre Nico e Lewis, sem interferência externa alguma, dá para dizer categoricamente que Hamilton e o esporte venceram.
 
O desfecho do GP da Áustria reflete dois pontos-chave. O primeiro deles é que a Mercedes, para o bem do esporte, deve seguir com sua política de igualdade e, como diria Tim Maia, liberar geral a briga entre Hamilton e Rosberg. Mas como tudo tem um preço, até que ponto, como equipe, os alemães têm a perder? Afinal, já foram duas dobradinhas para o vinagre, só nesta temporada: em Barcelona e também em Spielberg.
 
Mas na atual situação, não parece ser muito inteligente começar a adotar jogo de equipe, como sugeriu o chefe da Mercedes, Toto Wolff. Primeiro porque nem Hamilton e tampouco Rosberg dão indícios de que vão aceitar e mesmo cumprir. E segundo porque, por mais que aconteçam outros confrontos do tipo, não parece razoável pensar que a Mercedes vá perder o Mundial de Construtores neste ano. Ao contrário, ainda mais considerando que a equipe de Brackley já tem 103 pontos de vantagem para a Ferrari.
A vitória de Hamilton na Áustria acirrou de vez a luta pelo título em 2016 (Foto: Beto Issa)
O curioso disso tudo é que a batalha de Spielberg vem na esteira de declarações amistosas de Hamilton sobre o rival. Lewis disse que nunca sua relação com Rosberg esteve tão boa. Nico, por sua vez, adotou um tom mais pé no chão ao dizer que o relacionamento com o companheiro de equipe era o mesmo, e que novos problemas voltariam a acontecer, em tom até profético. 
 

Se a relação entre Hamilton e Rosberg segue a mesma ou se azedou, apenas os próximos dias vão responder. Os próximos dias também serão uma prova de fogo para o alemão, que historicamente sempre acaba sentindo mais o golpe nos embates que perde para Hamilton. Foi assim em 2014, no primeiro toque entre eles. E isso se repetiu em 2015 e, mais recentemente, nas provas que vieram depois do acidente entre ambos na Espanha. 
 
Para Nico, nada melhor do que derrotar o rival na sua casa depois do duro golpe sofrido na Áustria. Por isso, o GP da Inglaterra, décima etapa de uma temporada pra lá de empolgante, é fundamental para o alemão. Que venha Silverstone!
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