Motociclismo
28/08/2015 08:00

Conta-Giro: Nascida no motociclismo há 25 anos, Riders for Health leva assistência médica e muda vidas na África

A ONG Riders for Health nasceu para facilitar o acesso de profissionais de saúde aos mais diversos pontos da África Subsaariana e, 25 anos mais tarde, já ajudou a mudar a vida de 21,5 milhões de pessoas
Warm Up
JULIANA TESSER, de São Paulo
O pioneirismo de Andrea Coleman começou ainda nos anos 70, quando ela era uma das poucas mulheres correndo de moto. A paixão pelo motociclismo tinha surgido ainda na adolescência, quando a britânica comprou sua primeira moto.

Anos mais tarde, em 1979, a morte de seu primeiro marido, Tom Herrin, em um acidente na North West 200, afastou Andrea do motociclismo, mas Randy Mamola a trouxe de volta ao mundo das duas rodas.

Trabalhando com o norte-americano, que foi vice-campeão das 500cc em 1980, 1981, 1984 e 1987, na arrecadação de recursos para a fundação Save the Children, Andrea entrou em contato com a realidade da África.

Acompanhado pelo jornalista Barry Coleman, hoje marido de Andrea, Mamola visitou a Somália, onde a dupla constatou que muitos dos veículos que deveriam levar assistência médica às comunidades estavam quebrados por falta de manutenção.

Nascia aí a Riders for Health, uma ONG que vem mudando vidas na África há 25 anos.
Riders for Health treina profissionais de saúde para que eles possam fazer manutenção das motos (Foto: Riders for Health/Facebook)
“Eu e meu marido, Barry, viemos do mundo do motociclismo. Meu pai e meu falecido marido corriam, assim como eu. Crescendo com motos e graxa, nós simplesmente sabíamos como é importante cuidar dessas máquinas se você quer que elas continuem funcionando”, disse Andrea em entrevista ao GRANDE PRÊMIO. “Nós visitamos a África no fim dos anos 80 e o que vivenciamos mudou o curso das nossas vidas”, contou.
 
“Nós vimos ambulâncias e motos enferrujando em um canto da estrada, simplesmente porque as ferramentas e habilidades não estavam disponíveis para mantê-las. Nós vimos uma mulher grávida ser levada ao hospital em um carrinho de mão, simplesmente porque não havia outra forma de transporte. A assistência médica não chegava às pessoas que precisavam, pois os veículos estavam fora da estrada”, recordou. “Nós sabíamos que com as ferramentas certas, habilidades e planejamento, esses veículos poderiam ser mantidos na estrada e ajudar a entregar assistência médica. Nós criamos a Riders for Health em 1990 e agora estamos chegando a 21,5 milhões de pessoas com assistência médica”, seguiu.
 
Criada pela necessidade de facilitar o acesso de profissionais de saúde aos mais diversos pontos da África Subsaariana, que reúne os países localizados ao sul do deserto do Saara, a Riders mantém veículos de parceiros, usando seus conhecimentos em logística para permitir que medicamentos, exames e cuidados básicos de saúde cheguem às comunidades rurais.

Chefiada por Andrea, a RFH trabalha com ministérios da saúde, organizações não governamentais africanas e internacionais, grupos do setor privado, associações comunitárias e religiosas para melhorar o acesso de mais de 21 milhões de pessoas à assistência médica.

O foco do trabalho está em treinar os profissionais de saúde para que eles pilotem suas motos de forma segura, além de ensiná-los a fazer a manutenção preventiva dos veículos, o que permite que eles possam atingir seis vezes mais pessoas e dobrar o tempo que passam com a população.

“A Riders for Health funciona com parceiros focados em saúde, como outras organizações não governamentais ou ministérios da saúde, para gerenciar o sistema de transporte deles”, explicou Andrea. “Isso inclui o treinamento de funcionários de saúde em como guiar de forma segura motos e veículos de quatro rodas e também para que eles façam manutenção regular neles, para que não quebrem”, continuou.
 
“Nós também oferecemos serviços de gestão de frotas, garantindo que a frota de uma organização esteja sempre acessível, e que as peças e combustível para esses veículos estejam sempre disponíveis, o que significa que eles estão sempre nas estradas entregando assistência médica pelo maior tempo possível”, relatou.

Mesmo gerenciando em sua maior parte veículos de parceiros, a Riders algumas vezes se resposabiliza pela compra dessas motos, e a opção é sempre por um equipamento que se adapte às condições dos terrenos e que seja de manutenção fácil.
 
“Se formos comprar novas motos, compramos a Yamaha AG 100 ou 200”, afirmou Andrea. “Essas motos são ideais para as condições e também são fáceis de reparar”, justificou.
 
Levando em conta que a maior parte da população da África Subsaariana — composta por Congo, Burundi, Tanzânia, Uganda, Djibuti, Eritreia, Etiópia, Somália, Sudão, Benin, Burkina Fasso, Camarões, Chade, Costa do Marfim, Guiné Equatorial, Gabão, Gâmbia, Gana, Guiné-Bissau, Libéria, Mauritânia, Mali, Níger, Nigéria, Quênia, República Centro-Africana, Ruanda, Senegal, Serra Leoa e Togo — vive em áreas rurais, acessadas por estradas de terra primárias, o transporte é precário e a entrega de medicamentos muitas vezes é feita a pé ou com o uso de bicicletas, um trabalho exaustivo e ineficiente.

Ainda em novembro de 2006, Margaret Chan, diretora-geral da Organização Mundial da Saúde, alertou, durante em um discurso na Assembleia Mundial da Saúde, para a importância de uma logística eficiente para a assistência médica.

“Todas as drogas doadas no mundo não farão bem algum sem uma infraestrutura para sua distribuição”, avisou Chan.

Em resumo, sem uma rede de transportes eficientes, todo o investimento em vacinas, remédios, preservativos e profissionais de saúde vai pelo ralo, já que não chegam aos mais necessitados.
Profissionais de saúde podem passar mais tempo nas comunidades (Foto: Tom Oldham/Riders for Health)
“Milhões de dólares são gastos anualmente em drogas, medicamentos e mosquiteiros, mas é essencial que exista uma maneira de distribuir essas coisas para as pessoas que mais precisam delas”, frisou Coleman. “O transporte é muito frequentemente o elo que falta no sistema de saúde, mas é absolutamente essencial — nada pode funcionar sem veículos confiáveis”, resumiu.
 
25 anos após a sua criação, a Riders for Health, que tem como patrona a princesa Anne, de Gales, conseguiu provar que as motos, que, de acordo com dados da OMS, respondem por 23% das mortes em acidentes de trânsito, podem também salvar vidas e não só desperdiçá-las.

Antes da Riders, muitas pessoas que vivem nas comunidades hoje atendidas nunca tinham sequer visto um profissional de saúde, muito menos visitado uma clínica. No ano passado, a multipremiada organização conseguiu aumentar de 14,5 milhões de pessoas alcançadas para 21,5 milhões. Até 2017, a infraestrutura comandada por Andrea Coleman quer alcançar 25 milhões de pessoas, entre homens, mulheres e crianças.

“Em última análise, nós gostaríamos de expandir nosso trabalho para novos países e continentes”, afirmou. “Nós estamos muito empolgados, pois acabamos de lançar um novo programa na Libéria — trabalhando com o Ministério da Saúde para ajudá-los a reconstruir o sistema de saúde após a crise do ebola”, seguiu.
 
“Onde nós trabalhamos depende muito das parcerias que temos e da demanda pelos nossos serviços. Por enquanto, estamos trabalhando para ampliar nosso alcance nos países dos programas atuais e alcançar o máximo possível da população rural com cuidados de saúde essenciais”, declarou.
 
Em 2014, com um quadro de 470 funcionários, 95% deles baseados na África, a RFH gerenciou 1700 veículos, viajando um total de 12.986.668 km por sete países: Gâmbia, Quênia, Lesoto, Malawi, Nigéria, Zâmbia e Zimbábue.

“Nós temos treinadores experientes nos nossos programas locais que vão treinar profissionais de saúde em como guiar suas motos e carros de forma segura. Nós ensinamos técnicas como direção defensiva, como pilotar off-road e percepção de risco”, detalhou Andrea ao GP. “Normalmente, esses profissionais que ensinamos têm de pilotar em terrenos muito difíceis e pistas de terra, então é essencial que eles aprendam como guiar de forma segura nessas condições e também garantam que seus veículos não foram danificados. Assim como a pilotar, nós os ensinamos a fazer checagens diárias em seus veículos, como checar o óleo, os freios, etc., para que eles possam sempre guiar em boas condições”.
 
Os números podem ser grandiosos, mas os feitos em cada um desses países são ainda maiores. Atuando em parceria com o Ministério da Saúde e a Assistência Social do Gâmbia, a Riders viu o país se tornar o primeiro da África com transporte para levar serviços de saúde para a população inteira. São 300 veículos atendendo 1,8 milhão de pessoas.

No Quênia, a Riders atende 2,6 milhões de pessoas de uma população de 43,18 milhões, trabalhando especialmente no atendimento de portadores de HIV/AIDS.

Em Lesoto, o trabalho da organização é focando no transporte do material coletado para exames de análises clinicas e também em campanhas de vacinação para diminuir a mortalidade de crianças em decorrência de doenças como sarampo e difteria.

No Malawi, a RFH atende 5,01 milhões pessoas em uma população total de 16,36 milhões, atuando na prevenção da transmissão do vírus do HIV. No país, cerca de 80 mil pessoas morrem anualmente por conta da AIDS e a estimativa da OMS é que 11% da população seja portadora do vírus.
Antes da Riders for Health, muitas pessoas sequer tinha visto um profissional de saúde (Foto: Riders for Health)
Na Nigéria, onde mais da metade da população vive em extrema pobreza, uma a cada cinco crianças morre antes de completar cinco anos por conta de doenças como malária, pneumonia e AIDS. Atendendo mais de 200 mil pessoas atualmente, a Riders apoia o Programa Nacional para Erradicação da Malária.

No Zâmbia, a RFH atende 1,8 milhão de pessoas, atuando em parceria com o Ministério da Saúde no transporte de amostras para facilitar o diagnóstico de doenças como HIV e tuberculose.

No Zimbábue, um país onde 80% da população vive com menos de US$ 2 (cerca de R$ 7,10) por dia, a Riders alcança 8 milhões de pessoas, atuando para diagnosticar e monitorar doenças.

Para atingir aquele “último quilômetro”, como estabelecido nas metas da Riders for Health, nos países atualmente atendidos, a organização gasta £ 6,2 milhões (aproximadamente R$ 33,9 milhões). Para cada libra gasta, 88% veio de atividades de caridade, 6% de eventos motociclísticos de arrecadação, 5% de captação de recursos e 1% de governança.

Dia dos Campeões

 Uma das poucas, talvez a única, organização humanitária criada dentro de um esporte, a Riders for Health, tem o ‘Day of Champions’ (Dia dos Campeões, do inglês) como seu mais popular evento beneficente.

Criado em 1990 por sugestão de Kenny Roberts, o Dia dos Campeões surgiu como um evento especial realizado em Brands Hatch, onde o tricampeão das 500cc usou sua popularidade para atrair a participação de pilotos como Eddie Lawson, Wayne Rainey e John Kocinski.
Dia dos Campeões ajuda a arrecadar fundos para a Riders for Health (Foto: Facebook/Aspar)
De Brands Hatch, o evento seguiu o Mundial pelas pistas do Reino Unido e hoje é realizado em Silverstone, contando com a participação de todos os pilotos do grid, que doam luvas, camisetas, macacões, capacetes e muitos outros itens que vão a leilão para arrecadar verbas para a Riders.

“O Dia dos Campeões é o nosso principal evento de arrecadação de fundos e esta agora em seu 25º ano”, comentou a diretora-executiva da Riders. “Durante o dia, os fãs da MotoGP podem entrar no exclusivo paddock da categoria e no pit-lane, e assistirem os pilotos e times se preparando para o fim de semana de corrida”, continuou.
 
“De tarde, nós temos o leilão da MotoGP. Todos os pilotos do Mundial sobem ao palco e leiloam seus próprios itens e experiências, como botas, macacões e tours pelas garagens”, exemplificou. “A atmosfera é fantástica e é uma ótima chance para os fãs verem seus pilotos favoritos e terem um pedaço da história da MotoGP. Todos os anos nós somos incrivelmente gratos aos times e pilotos por apoiarem o leilão”, contou.
 
No ano passado, o Dia arrecadou £ 193.802 (cerca de R$ 1,06 milhão). Na edição 2015, realizada na quinta-feira (27) na pista de Northamptonshire, o leilão arrecadou cerca de £ 100 mil (por volta de R$ 547,9 mil).

Além disso, Bradley Smith decidiu homenagear Jeanette Wrag, uma das criadoras do evento, que morreu no início do ano, com a doação de uma moto.

Parceira de longa data do Mundial de Motovelocidade, a Riders for Health reconhece que não seria possível chegar a essas mais de 20 milhões de pessoas sem o apoio de pilotos, equipes e dirigentes.

“A Riders for Health nasceu do mundo das corridas de moto e isso foi, em absoluto, chave para o nosso sucesso desde então”, avaliou Coleman. “Nós somos a instituição de caridade oficial da Dorna por quase dez anos e, honestamente, não estaríamos onde estamos hoje sem o apoio deles e o apoio de todos os times, piloto e circuitos que nos ajudam a angariar fundos em eventos ao redor do mundo”, reconheceu.
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