Motociclismo
25/06/2015 08:00

Único brasileiro na prova mais perigosa do mundo, Paschoalin resume TT da Ilha de Man: “Loucura é menor do que pensam”

Único brasileiro no TT da Ilha de Man, Rafael Paschoalin avaliou que a loucura daquela que é considerada a prova mais perigosa do mundo é menor do que parece. Em sua terceira participação na prova, piloto de 32 anos conquistou a 30ª colocação na categoria Senior TT
Warm Up
JULIANA TESSER, de São Paulo
Aos 32 anos, Rafael Paschoalin voltou a encarar os perigos do Circuito da Montanha. Pelo terceiro ano consecutivo, o piloto de São Paulo disputou o Troféu Turista da Ilha de Man, uma prova que é sinônimo de perigo.
 
O TT é disputado em um traçado de mais de 60 km localizado em uma pequena ilha de 572 km² que fica entre Inglaterra, Escócia e Irlanda do Norte. A ilha do Mar da Irlanda recebe a prova desde 1907 e vê as motos rodando a uma velocidade media de 208 km/h nas 256 curvas do circuito.
 
Conhecida pelo perigo, a prova é, aliás, uma reação à decisão do Parlamento Britânico de proibir as corridas de rua no início do século XX. O Automóvel Clube Britânico decidiu, então, pedir apoio ao governo local para a realização da disputa, que só não aconteceu durante os anos da Segunda Guerra Mundial e em 2001, por conta de um surto de febre aftosa. 
Rafael Paschoalin tem um contrato de três anos com a Yamaha (Foto: Divulgação)
Nesses mais de cem anos de história, o TT da Ilha de Man já vitimou 246 pilotos e mantém uma assustadora média de cerca de duas mortes por edição. O risco extremo, entretanto, não afasta os competidores e a prova segue atraindo pilotos das mais diversas partes do mundo. 
 
Conhecido como ‘King of Road’, Joey Dunlop é o maior vencedor da pequena ilha. Ao longo da carreira, o irlandês somou um total de 26 triunfos em Man, mas perdeu a vida competindo. Em 2000, aos 48 anos, o piloto morreu tragicamente após um acidente em uma prova na Estônia. 
 
Além de Dunlop, outros grandes nomes do motociclismo se consagraram em Man, como Giacomo Agostini, Phil Read, Geoff Duke e Mike Grant. Ainda em atividade, John McGuinness é o segundo maior vencedor. O britânico, que começou em 1996, já soma 23 vitórias.
 
Na contramão dos poucos brasileiros que correm no exterior, Paschoalin rejeitou a relativa segurança dos circuitos e preferiu se arriscar entre os muros e precipícios do Circuito da Montanha.
 
Falando ao GRANDE PRÊMIO após sua terceira participação no TT, Rafael avaliou que é difícil explicar o que é a prova da Ilha de Man, mas ressaltou que quem acompanha de perto entende o significado daquilo.
 
“O monstro está dentro de cada piloto e não sei se é melhor quando ele te assusta ou quando ele te dá confiança. Em ambos os casos é perigoso”, comentou. “O TT é charmoso, motociclismo de gente apaixonada pelo que faz. O lado triste da história são os acidentes, que acontecem ano após ano. Não seria a mesma coisa sem o risco, mas o ideal mesmo seria que ninguém morresse por lá”, seguiu. 
 
“É muito complicado de descrever, mas quem presencia, entende de uma vez por todas por que algumas pessoas não vivem sem aquilo!”, afirmou.
 
Indagado se é possível comparar o TT com outro esporte, Paschoalin respondeu: “Não imagino como comparar com qualquer outra modalidade. Deve ter um pouco de Nürburgring, com um pouco de Dakar e uma pitada de Pikes Peak”.
 
Participante de uma prova conhecida pelo risco, Rafael contou que já desistiu de convencer as pessoas que não é suicida e ressaltou que a loucura do TT é menor do que se imagina.
 
“Acho que certas pessoas nunca vão entender e eu não me preocupo muito em convencê-las de que eu não sou suicida”, declarou. “Mas não existe nada que faça eu me sentir mais vivo do que desafiar com uma motocicleta esse circuito de 256 curvas”, continuou. 
 
“Não existe dinheiro no mundo que faça alguém fazer aquilo de maneira forçada, e isso é o que torna todas as pessoas ali especiais”, defendeu. “É preciso um punhado grande de coragem, sem dúvida, mas a loucura é menor do que todos acham que é. Tem muita técnica, muita preparação e muito cuidado envolvendo tudo”, apontou. 
 
Embora seja uma prova majoritariamente de pilotos experientes, Paschoalin acredita que é o lado emocional e não o técnico que faz a diferença no Troféu Turista.
Rafael Paschoalin fez seu terceiro TT em 2015 (Foto: Dave Photocycles)
“Sem dúvida, o emocional é o ponto chave”, garantiu Rafael. “Você precisa chegar em ordem, com um condicionamento OK. A técnica é adquirida antes e aprimorada ao longo dos anos, porém, sem o emocional forte, nada funciona”, observou. 
 
“Acho que os irlandeses e ingleses são bons por aqui principalmente por conta do poder emocional”, opinou. “Os caras tem uma outra forma de ligação com a morte e isso é muito diferente do que estamos acostumados no Brasil”, relatou.
 
Em sua terceira participação, Paschoalin contou que alterou seu preparo em relação ao que fez no ano passado, especialmente no que diz respeito aos filhos e familiares.
 
“Ano passado, cheguei na Europa e abri as cartas dos meus filhos e familiares. Foi uma espécie de surpresa que as pessoas que me amam fizeram para eu ficar bem fora de casa”, contou. “Acontece que funcionou ao contrário, e depois de passar um ano lutando para chegar ao TT, o que eu mais queria era voltar vivo pra casa!”, seguiu. 
 
“Nesse ano foi tudo diferente. Nada de cartas, testamento feito há um bom tempo e confiança lá em cima”, detalhou. “Em uma prova em que você fica desafiando os limites durante duas horas, entre muros e precipícios, é preciso uma cabeça boa para não cometer erros”, sublinhou.
 
Apesar de não usar mais o colete laranja dos estreantes, Rafael é novo no ambiente do TT, mas, ainda assim, já vê diferenças no cenário. 
 
 “As coisas mudaram muito em três anos. Em 2012 eu conheci o [John] McGuinness lavando seu próprio motorhome no estacionamento da North West. Conversamos e ele me convidou para tomar uma ‘Pint’ no bar”, relatou. “Hoje ele e os top-riders não conseguem andar pelo paddock sem dar ao menos uma porção de autógrafos e outras tantas fotografias. As provas de rua continuam acolhedoras como nenhuma outra, mas tudo está ficando mais profissional. E talvez um pouco mais chato”, avaliou.
 
Nesses três anos, Paschoalin recorreu ao financiamento coletivo para poder arcar com os custos da prova. Apesar de o TT não ser assim tão popular no Brasil, atingir a meta nunca foi um problema.
 
“No Brasil, o interesse se dá devido à propagação dos vídeos nas redes sociais. Não tem que não se abisme, goste ou odeie isso aqui”, comentou. “Tenho ao meu lado o gancho de ser o único piloto brasileiro aqui por enquanto e isso é importante para os patrocinadores. No entanto, o carinho dos fãs é essencial para o patrocínio coletivo funcionar bem. Utilizamos pela terceira vez a plataforma do ‘O Pote’ e as pessoas já estão perguntando quando começa de novo a campanha para doar para 2016”, relatou.
Traçado de Man tem mais de 60 km (Imagem: Divulgação)
Em um traçado com 256 curvas, Rafael ainda não tem um ponto favorito, mas não tem dificuldade para apontar o ponto mais difícil.
 
“Gosto de uma ou outra até que ganho confiança e em seguida tomo um susto. Aí já deixo de gostar!”, contou rindo. “O Bray Hill é o ponto mais desafiador para mim. Nos vídeos você não tem ideia do quanto é íngreme, mas eu te garanto que você precisa ser um ciclista profissional para subir aquilo pedalando”, comparou. 
 
“Nós descemos de sexta marcha a 290 km/h, sem enxergar nada e fazendo um esforço descomunal para mudar a direção da moto de um lado ao outro da rua”, explicou. “No final da descida e começo da subida, a moto pega no chão, os órgãos se comprimem e você tem a impressão que seu cérebro quer descer pela traqueia. Se fizer tudo isso rápido como deve ser feito, a vista escurece por uma fração de segundo. É incrível passar por tudo isso”, considerou.
 
Rafael contou que o nervosismo dos membros da equipe é claro e que os preparativos finais para subir na moto são “um tipo de flagelação”.
 
“O nervosismo está estampado nos olhos de toda a equipe quando você parte para uma volta, corrida ou treino. Meu pai sempre falava: ‘Cuidado, cabeça, anda relaxado’, fazendo um movimento suave com as mãos, reproduzindo uma pilotagem suave. Eu sempre respondia, em tom irônico, que se fizesse isso não iria andar rápido e que eu sabia exatamente o que estava fazendo”, revelou. “No TT, o pior momento para mim vem antes de receber os tapinhas no ombro e partir para a pista. Colocar o macacão e arrumar as sobreviseiras é um tipo de flagelação”, resumiu.
 
“Eu costumo fazer planos pós TT, isso me dá mais confiança e sempre penso que Deus pensa o seguinte: ‘Ok, esse rapaz precisa fazer mais algumas coisas, vou dar uma forcinha’”, comentou. “Mas tudo se transforma em algo mágico quando a primeira marcha é engatada e a moto ganha velocidade. Você só pensa em ir mais rápido e se prepara antecipadamente para cada uma das 256 curvas”, completou.
 
As mudanças técnicas
 
Nessa terceira participação no TT, Rafael contou com sua terceira moto diferente na ilha. Depois de Ducati e Honda, chegou a vez que o brasileiro contar com a YZF-R1M da Yamaha.
 
 “Demorou um pouco para as coisas darem certo e agora com a Yamaha eu me sinto em casa. Temos um contrato de três anos e eu espero seguir com eles até o fim”, falou. “Sempre digo que não existe superbike de 1000cc ruim, principalmente quando tratamos de motos de corrida. O que acontece é que todos ajustam para si o que preferem, seja potência, torque, dirigibilidade e com a durabilidade do conjunto em risco, sempre”, apontou. 
 
“A nova Yamaha YZF-R1 é muito, muito forte e tem um torque descomunal (tivemos que trocar pinhão, corrente e coroa durante o TT). Porém, é uma moto totalmente nova e sem data (informações de pista, macetes de geometria e acerto), e, por isso, ainda vai levar algum tempo para ela ficar mais e mais competitiva em uma prova como o TT”, explicou. “Para a minha média de velocidade ela ainda é perfeita e no ano que vem estará ainda mais acertada”, elogiou.
Rafael Paschoalin ficou em 30º na Senior TT (Foto: Diane McCudden)
Comparando com o equipamento dos anos anteriores, Paschoalin comentou que falta à Yamaha o tempo de pista das outras máquinas.
 
“A Ducati não e a moto ideal para o TT, e o número de pilotos que competem com ela nessa prova mostra isso. No entanto, é uma ótima moto para circuitos curtos e autódromos, e tem um torque bestial”, relatou. “A Honda tem o melhor chassi para o TT, porém falta potência e eletrônica. A Yamaha tem um motor que atropela BMW e Kawasaki originais, porém ainda sofre com a falta de informação na questão da dirigibilidade”, detalhou. 
 
Em seu primeiro TT, Rafael tinha a meta de classificar e voltar vivo. Para o segundo, o objetivo era o top-40. Desta vez, a ideia era concluir negócios inacabados na ilha.
 
“Esse ano a meta era cumprir o que não consegui no ano passado: superar as 120 mph [193 km/h]. Missão cumprida e marca ainda melhorada para 121,7 mph [195,8 km/h]”, comentou. “Voltar vivo sempre vai fazer parte dos planos, afinal, se morrer tudo vai por água a baixo”. 
 
Perguntado sobre qual a sua avaliação da prova de 2015, Rafa, que completou a Senior TT no 30º posto — John McGuinness foi o vencedor —, respondeu: “Sofremos muito com a falta de disponibilidade de peças e também com alguns patrocinadores que nos deixaram na mão por conta do momento instável que o Brasil atravessa. No final, deu tudo certo, mas poderia ter sido muito melhor se o projeto tivesse acontecido com a verba total e não apenas 50% do que precisávamos”. 
 
“Nesse ano tivemos a certeza de que é possível chegar perto dos melhores em alguns anos e isso nos motivou ainda mais para voltar ao Brasil com força total e angariar recursos para evoluir nesse projeto”, ressaltou. “Eu tenho 10 anos de TT pela frente e nenhuma pressa para colocar o carro na frente dos bois. Estamos em um território traiçoeiro e é preciso respeito acima de tudo”, frisou Paschoalin.
 
Antes de chegar ao TT, Paschoalin participou da North West 200, um dos principais eventos esportivos da Irlanda do Norte, mas um tombo o impediu de completar a disputa. Agora, Rafa permanece no país, onde disputa a UlsterGP entre os dias 3 e 8 de agosto.
 
“A NW200 foi essencial para eu adquirir a confiança necessária. Apesar do tombo, classifiquei de pneu velho em 27º na Superbike e tinha tudo para terminar próximo dos 20 primeiros. Claro que cair foi um balde de água fria e me fez pensar muito sobre a responsabilidade de terminar bem cada uma das provas”, comentou. “Daqui alguns dias eu tenho a UlsterGP, na Irlanda. Essa é a prova de rua mais veloz do mundo e eu vou fazer a minha estreia por lá. O plano é ficar novamente entre os 30 mesmo na primeira participação, mais um grande desafio e a contagem regressiva já está aberta para essa aventura!”, encerrou. 
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